sábado, 25 de setembro de 2021

Missão avançada

Os fatos transcorrem lentamente

Dissecando no limiar da dor

E ainda que houvesse latente

O berro do monstro em torpor

Escapa da brecha crescente


Cada morte em vida cicatrizada

Com interrupções metodicamente ignoradas

Até a rima, sem lamento, estraga

Como minha vontade escapa

A conta-gotas da torneira quebrada


Não tem medida nem sincronia

Na quantidade de vida vazia

E sonhos mortos pela via

Me levando goela abaixo, eu ia

Se fosse pelo menos metade de vadia


Mas nem isso, a maldita travada

Recatada, recortada e colada

Desmoronando pelas sacadas

E os demônios seguindo, livres

Pelas bordas da madrugada


E da poça do meu sangue

Sobem raízes de mangue

Como espadas afiadas

E há quem se ache suficiente bento

Pra apontar o gozo infame às risadas


Vem, amputai mais um braço, 

A dor é irrelevante, eu faço

Da quantidade de vezes que renasço

As contas desse quadrante

Do mais mal aproveitado espaço