Os fatos transcorrem lentamente
Dissecando no limiar da dor
E ainda que houvesse latente
O berro do monstro em torpor
Escapa da brecha crescente
Cada morte em vida cicatrizada
Com interrupções metodicamente ignoradas
Até a rima, sem lamento, estraga
Como minha vontade escapa
A conta-gotas da torneira quebrada
Não tem medida nem sincronia
Na quantidade de vida vazia
E sonhos mortos pela via
Me levando goela abaixo, eu ia
Se fosse pelo menos metade de vadia
Mas nem isso, a maldita travada
Recatada, recortada e colada
Desmoronando pelas sacadas
E os demônios seguindo, livres
Pelas bordas da madrugada
E da poça do meu sangue
Sobem raízes de mangue
Como espadas afiadas
E há quem se ache suficiente bento
Pra apontar o gozo infame às risadas
Vem, amputai mais um braço,
A dor é irrelevante, eu faço
Da quantidade de vezes que renasço
As contas desse quadrante
Do mais mal aproveitado espaço