segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Agartha

Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal —
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval… 

E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã…
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste… Seu ’spírito monge
Para nada externo é perto e real…
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval… 


O. C., I v., Poesias, p. 208.
Fernando Pessoa



Explicações superficiais com elementos visuais
Ignoro a terça parte do horizonte olhando acima
Onde estrelas brilham ocultando eventos
Que a mente vã subvoando, fantasia.
E para onde quer que se tente focalizar
A gravidade insólita flutuando elementos
Me gira a terra para o avesso teto
E faz-me o chão de vento

Ao invés de desnortear, firmo e acalento
Como se as asas pudessem provar
Com aurículo paladar, fractal sinestesia.

Fluo junto ao inverso, conexa patente
Presenteio ao futuro um verso oculto, linear
Minha bussola tal um catavento, confusa
Por intensos lapsos no espaço-tempo
Ativa o dínamo da vontade fusa
Com pequenos espasmos de mar
E uma erupção de estrelas ascende
Clareando a terra poente.






 

Um comentário: