quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Desperdício

Memórias são como larvas
Quando brandam, estão em pupas
Crescendo lentas e silentes
Até eclodirem, surtas
Rasgando a pele do esquecimento
Durante aquele momento
Se pisa em terreno encharcado
Se vê novamente enforcado
Reprova o gosto metálico
Por baixo, através do cimento
Que escorre pelo ventre escaldado
E, selando as galerias com palavras
Acrescenta mais uma partição
A biblioteca dos malfadados:
"Sessão das pestes latentes"

Principes descoroados
Plebeus e playboys revoltados
Ou míseros abastados,
Não dialoguem com a serpente
Ou morrerão asfixiados
Pelo tempo.

Suicida

A dor se anestesia a si
Ante a cegueira de tudo que já vi:
Pessoas sofrendo despreocupadas
Presas num mecânico sonho
Aceitamos o açoite, risonhos,
O carrasco e o réu, acorrentados.
Talvez esteja cauterizado
N'alguma singularidade, absorto
Da vida, evidente aborto
Esta parte nossa desconectada
Ou então a mente desestruturada,
Ou então a balança que molda o jogo.
Ou então a covardia que assassina o novo, 
Salve a família em troca do ovo
Deixe a matilha pra perseguir o corvo
Abandone a vida, mas permaneça no corpo
A falta da luz dos olhos orientando ao derradeiro porto.

Gota D'agua

Ecoa um grito mudo
Através de líquidos impuros
Através de pensamentos ilícitos
Através do cansaço e do desespero
Atravessa as almas sutis
Se choca contra os pesadelos
E ao invés dum apelo
Se traduz em explícito
No sorriso dos nascituros.

Binah

Sou eu quem constrói
Quem sabe o que sabe
Diretriz irreversível
A vontade direcionada

Mão que aplica o fio
Da espada e afia o corte
Também sou a própria morte
Escorrendo dilacerada

Da vida, sou o norte
O botão da rosa que se abre
A parte que se cabe
Desta teia invisível

Esta força exarcebada
Chama da consciência
Negativo polo, diz a ciência
A verdade consumada

A terra que germina
O foco, negro brio
Do vácuo, imponente vazio
Do gênero, feminina.