segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Homem de Gebelein

Das sombras das pirâmides aos templos enegrecidos
Soa o grito da harpia dentro dos ouvidos entupidos.
Não, você não pode falar
Faz parte do particípio.
O passado... Não jaz mais que eu em teu auxílio...

A dança da diálise mecânica engana
E geralmente entala nas entranhas
Estranha presença em um corpo algodoado.
Não, você não pode hesitar
Faz parte da sua herança.

E o mal que se acostuma com o enlace
Esparrama contradição: por cima sente a carne, por baixo é oração
Se entrega antes que acabe.
Não, você não pode chorar
Faz parte da criação.

E a fiação elétrica da lembrança provoca um curto
Enquanto a semi-breve espanta os rateios, florescidos por entre os dedos da fiança.
Não, você não pode desvelar,
Esse foi o contrato de confiança.



L'hopital

O cirurgião verifica a bandeja de instrumentos
Palavras, olhares, cheiros e movimentos
Acompanham seu olhar incisivo
Diante das portas abertas do esterno

Caça e caçador revezavam vazamentos
E pra cada órgão averiguado, um gole de veneno
A fim de esterilizar as circunstâncias
E coibir o uso do santo óbvio, são.

Alias, sanidade mandou lembrança
Da janela do desespero
E costurando a goela com um beijo
Ele assina o prontuário, à distância:

Causa mortis: disritmia empática severa.

O mal que me Entube

Vendo o coração partido, naufragato
Sob as nuvens sangrentas de minério
Sabia que não havia ali nenhum mistério
Quiçá nem o tempo desperdiçado

As vezes, eu que falo errado
E todo esse silêncio me impele ao mistério
Como se pudesse estar aí  a cura pro tédio
Para qual a tanto tempo tenho ensaiado

As vezes eu queria estar errado
E romper com o ciclo dos pretéritos
Sou a prova viva de que não há mérito
Na percepção hipertônica dos meus olhos cerrados

Decerto, meu tempo preso nesse coma
Talvez um dia me engula
Talvez uma hora me acuda
Talvez, por um segundo, me emociona.