quarta-feira, 28 de abril de 2021

Números

Quando o nome vem primeiro

As veias apagadas não levam

Nem mais o oxigênio sobressalente

Com suas desnutridas células 

Em um privativo cativeiro

Os drenos, sufocando lentamente

Sobre a cama de pregos com travesseiro

Que mal suporta o peso da mente

Os tubos e fios, como chicotes inertes

Marcam a pele do mesmo jeito:

Esparadrapos grunhindo

Espasmos involuntários

E silenciosos gemidos


Quando não há nome

Um súbito impacto sela

O peito prensado se congela

Num último segundo de adrenalina

A vida passa em um fio

A alma consente num pio

E ali mesmo tudo se encerra

Somando aos números, sina

Que desde o nascimento rondava

As bordas do precipício









segunda-feira, 26 de abril de 2021

Pedra Lascada

Não me leve a mal

Mas uma pessoa que se preze

Não quer ser notada

Não quer que ninguém mude um ponto

No seu conto

Com uma visão equivocada


A imagem é uma coisa centrípeta

Que esmaga ao invés de dar vida

Melhor passar desapercebida

Que ser apedrejada


Raramente uma estrela cadente faz barulho

Quando faz, correr é inútil de todo

Menos para o tardígrado

Que já leu o livro, viu o filme e o seriado

E achou bobo


Ficar nos anais da história

Prova que meu brinquedo foi quebrado

Quero a paz de só lembrarem de mim

Quando eu já estiver do outro lado


Aí não será mais eu

Nada que me consuma

Nenhum dedo apontado

Nenhuma verdade oculta


Mais de apenas uma casca

Para as cascas que lêem

Se identificarem numa lasca

Daquilo que não vêem



- Lalla, como você suporta viver nua na frente dos homens?

- Não vejo nenhum homem aqui. Que roupa seria mais bela e mais sagrada?





domingo, 25 de abril de 2021

Lalla

Meu consorte está nas cinzas

Daquele que ainda não nasceu

E daquele que perecerá

Ele não espera nem O fogo

Para a verdade consumar


Meu consorte não teme

Nem o que foi, nem o que será

Seu primeiro nome é tempo

E seu último nome o tempo dará

Hoje é chamado criador

Amanhã, qual nome terá?


Meu consorte não está aqui

Meu consorte não está em nenhum lugar

Porque o estar é passageiro

E o tempo não pode parar

Mas eu o acelero mesmo assim


Minha vida não tem termo

Onde ele não está

Não há casta nem título

Que possa me apaziguar

Meu consorte venceu a morte


Por que eu hei de esperar?

sábado, 24 de abril de 2021

Terraformar

 A deusa da morte caminha pela terra 

Ontem ela me tocou e eu não senti dor

O gado de corte, a mesa cheia, o ódio não erra

Só desintegra toda forma de amor


Não foi como se eu nunca houvesse existido

Assisti a tudo, quase sem medo

Eu, o jardim e as migalhas do meu grito

Seu olhar sem esperar, perdido 


Nem chego a ser lembrança, talvez sensação

De um abandono que nunca aconteceu

Talvez tenha me transformado em ânsia

De tudo que nunca foi meu


A deusa da morte está assentada na sala

Comemorando o fim enquanto nós, a chegada

O copo meio vazio, a busca atrasada

O desencontro das almas, aquele que cala


A pira das cinzas funerárias

Você sem mais incômodos

A Deusa nos tem como párias

E nós, a ela como engodo


A Deusa caminha

Enquanto sua fome não for saciada

Você não sorria

Enquanto eu era a piada?


"O problema são os outros"

A Deusa sabia.