quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Mosqueteiro

Derramou quatro taças
Incitou quatro cores
Humedeceu as quatro íris
Fixadas nas quatro colunas, flores

Em Ishtar fracassou
Três corpos mergulhou
Chorou do colo de Ísis
Perecendo nas altas torres
E desaguou à pira.

Mas, ainda existindo, gira
No encontro dos dois pontos
Será a seta que afaga
Será a areia que apaga

Superficial figura
Não passa de fagulha
Perto daquilo que guarda.

domingo, 17 de agosto de 2014

Quinto Império

Alma, o nectar

Matriz universal de todo movimento
Drenada, armazenada e processada
Como bebida falsificada, envasada
Em recipientes orgânicos de plástico
Que se decompõe sob pressão.
Sociedade manufaturada
Estagnada e putrefata.

Olhar predador
Na cadeia de eventos, previsível
Da importância vulgar do óbvio
Transforma o tédio em agonia
Arrasta o tempo em afasia,
Semeiando nas arestas, o ódio.

Daqueles que jazem desertos
À sombra do carvalho, perenes
Sob tão rígida e inflexível postura
Para nós, ainda que cansados, apura
Todos os infames desígnios dos ébrios
Desejos absurdos e injúrias.




O guardanapo do guardião

Chora. Implora, goza.
A vida é bela, a vida é fera, é uma merda.
Mas merda aduba, palavras de baixo calão masturbam
Os ouvidos mais apurados, deturpa a alma dos defasados
Humilhados que choram e imploram por conhecimento, e gozam
Criam? Creriam que eu seja ou sejamos, mas claro que somos parte
Desta eterna, externa boss(t)a, que samba e revira tudo pras bordas
E chora porque não gosta do que foi criado como se a responsabilidade
Fosse habilidade implicada, implicancia ou teste de aptidão
Cansativo tudo isso. Quadro velho, tinta dura, musica ruim...
E a dor... ah, a dor é só o tempero dessa salada gosmenta
Humano, é isso, salada orgânica gosmenta e indigesta
Que o universo, entediado, expurgou.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Error 404

Quero me comunicar com quem?
Meu protocolo é desconexo, meus sentimentos estão prescritos
Em algum papel carimbado, numa caligrafia terrível
Por algum outro doente mais qualificado

Clara demonstração de que eu também não me encaixo
Neste teatro de papel sujo, reciclado e enrendo sofrível
Cuja história, mentirosa, goteja, me asperge e grita
Das tumbas dos antepassados silenciados

Porque eu sou tu, eu sou nós, esta inscrito!
No código sagrado, milenar e ilegível
Que daquele obsoleto senhor amoral desalmado
Restou apenas o tu, o vós e os que seguem.

E por isto, reduz nossa espécie a rebanho,
Alguns indivíduos cômicamente selecionados, ao pastoreio,
Nosso habitat a um cemitério,
E ainda quer que eu ache sério
Os critérios de escolha desse personagem

Então volto ao placebo
Até que uma hora, percebo
Que não há vaidade em tirar vantagem
De qualquer doença da qual eu me julgue curado.

Sobre a poesia e os relógios de ouro

Como se o tempo cobrasse as horas
Como se a palavra custeasse o momento
Na dança, na posse, no intento
As lesões comprovam: Porra nenhuma!
É como escolher por fator rh
Bancando o geneticista sênior
E ver os ponteiros girando, o prêmio
Mas na espiral da vida... encurralados
Ir baixo é vergonhoso demais
Pra enxergar a verdade do círculo
Ou ao menos ter o senso de ridículo
E desviar esse olhar descendente
Ou então que a sabedoria latente
Invente de solver os metais
Dessas caras pálidas, desamarrar
As posses, os refluxos e armaduras.
Como se o tempo acabasse agora,
Como se a palavra significasse...