sábado, 22 de maio de 2021

Bom senso

Você precisa testar suas teorias em um rato de laboratório

E acredita piamente que encontrou o modelo certo

Quando concordei em participar, não me foram apresentados termos

Portanto é hora de você entender que nada do que pensa está fundamentado

Afeto não deve ser estudado cientificamente

Ele não obedece leis nem tem dispositivos determinados

Por tentativa e erro você é capaz de matar e ser morto?

Ora, não te vi com o pescoço arriscado

Eu sou a louca e no final de tudo, é apenas um tratamento

Então deixe-me receitar algo para obsessão

Misture dois copos bem cheios de esquecimento, uma gotinha de lamento

Três dos vários pedaços de mim que você colecionou

Ponha no fogo do meu ódio pela forma como tudo aconteceu

Inale a sensação de vazio, de arrependimento e perda de tempo que emana desse amor líquido

Depois tome-o, sem esperar esfriar

Dentre os efeitos catalogados, você vai deixar de perguntar se tenho certeza

E vai passar a estar certo de que não está acabado o que nunca começou

De que a ilusão foi um fator mútuo que influenciou negativamente seu experimento

Fadado ao erro pela pura falta de simetria, além da falta de objetivo

Reações adversas esperadas são náuseas, raiva e sensação de perda de tempo

Você pode se sentir um pouco manipulado, mas são os ansiolíticos que você já toma

Remédios horríveis estes, prefiro o que te indiquei e ele tem nome:

Bom senso.














sexta-feira, 7 de maio de 2021

Horizonte de eventos

 Eu não quero ser nada aqui não

Tá doido, pra quê assumir essa responsabilidade

De levantar um estandarte e não poder mais ir a lugar nenhum?

Como um soldado inglês ou uma estátua

Um pedregulho, nem isso!

Eu não quero ser nenhum Cristo pendurado, nenhuma luz

Só quero não querendo, estar sem estado

Até a preguiça pode me deixar enjoado

Me interessa mesmo só cada instante, sem olhar pro lado

Hesitante, exilado, que porra, eu quero é ficar excitado

Minha única condição é a de tédio constante

Um tédio cíclico, uma consoante sem significado

Que ira isso mantém, arfante, segurando o cabresto já degenerado?

Ah é exagero, você deve estar equivocado

Esquizofrênico, emperrado. A culpa

É sempre do último a ficar calado?

Quero que se foda, quero é vodka, eu quero estar errado!

Porque tudo o que vejo é tão entendiante

Que eu não posso simplesmente ver acontecer e ficar sentado.

Quer saber? Quero mais nada não. Nem o instante. Vamos abreviar o papo... você pode pegar tudo e enfiar no...














quinta-feira, 6 de maio de 2021

Verde

A verdade é que toda mãe da terra é nossa mãe também

E a gente nem sabe mais se não sente, ou se está chorando por dentro

É um sorriso meio descabido e um olhar de tempo perdido

De toda vez que te via de manhã e não vejo mais

De nem saber e de repente

Esse verde brilhante se dissolver no ilusório

E a planta que nunca mais vou poder te pedir a muda

E todas as outras que você já me apresentou, as que não deu tempo de perguntar

E eu mal lembrava na correria do dia, mas a gente se via... e passava

Ninguém vai saber que eu senti sua falta, aquele sorriso bobo

Bom dia, mãe, bom dia vizinha

Me desculpa, eu tô com o coração meio míope também

Tomara que você não me esqueça








segunda-feira, 3 de maio de 2021

Entropia

Pra existir, é necessário forçar

Nem a respiração vem fácil

O alimento só pode ser conquistado

De uma forma ou outra, algo se move

Alguém intenta, energia colapsa

E se aglutina no novo

Mas eu não sinto vontade

Eu sinto a distância, sem a vaidade

Não possuo nada, acreditar no contrário

É ilusão. Também não quero possuir.

É outra ilusão. Quem fica e quem vai

Está cumprindo sua função

Quem sou eu pra questionar

Minha única pergunta é

Com qual objetivo ficamos ou vamos?

Eu também não tenho objetivo

Já tive, planinho traçado, impecável

Veio o inesperado e rabiscou tudo

Pior que um guri encapetado

Eu faço o que? Gargalho

Se eu não controlo nada

Por que vou me irritar com o que deu errado?

As linhas contém cálculos não finalizados

O mais sensato a fazer é ficar parado

Esse é o nada, esse é o tao

E quando eu acho que entendi

A resposta está para o outro lado

Tenho a vontade, sinto

Porque o sentido surge da necessidade

De discriminar o que interage

Para bem ou mal de si

É natural e justo, são quatro mãos

Segurando as duas pontas de uma corda

Entrelaçadas em outras cordas

Algum sem noção deitado no meio

Sem julgamento, eu faria o mesmo

Aliás, é o que eu estive fazendo

Acredito que algumas daquelas cordas

Só não me estrangularam porque eu deitei

A preguiça é o melhor pecado

Porque te impede de cometer os outros seis

A pureza do movimento

Reside na sutileza do meio

E assim fazendo nada

Eu danço no ritmo do devaneio

As vezes eu esqueço

E a música para

A mente grita

A coluna estrala

Lá vem ela, a corda desvairada

Pra eu pular outra vez

Ou cair sentada

Ou surtar, dessa vez

É isso que me mata

A mesma racionalidade que salva

Também silencia, imobiliza

Ou na verdade estou presa

E minha cama é uma miragem

O incomodo vem da dúvida genuína

Ou da ilusão da verdade?


Fóssil

 Algo está acontecendo

"preto calado está errado"

Mas você é preto

"Me respeita, negrinha"

Sua arrogante, sua descabelada

Você quase matou sua mãe, desvairada

Você não sabe andar direito, essa toalha não é sua

Você deveria ser um menino, está ridícula

Você deveria tocar o que eu mando

Amigos pra que, você tem os meus

Você deveria voltar pra casa, seu marido precisa de uma esposa

Você ainda tem essa doença estranha? 

Porque você escuta essas músicas ridículas,

Você deveria ser igual fulana, seria melhor se você fosse um ciclano

Quando eu tive você, estava bêbada

Estava com vergonha

Estava morta

Sua desengonçada, o mundo é ainda pior

Você vai se arrepender

Ela é esquisita, pelo menos é inteligente

Você é muito inteligente, nossa


Amigo, se eu fosse mesmo inteligente, você acha que teria escolhido nascer desta espécie?

Obstruido

Você duvida

Eu também

Você tentou

Eu também

Você sangrou

Eu também

Você se expôs

Eu também

Mas eu dei a cara a tapa

Eu cedi a pessoas que nunca me respeitaram

Pra ter direito a uns minutos do seu tempo

Eu fui dissecada, me deixei ser manipulada

E tudo o que devolvi foi o espaço que você pediu.

Ou vc foi muito infeliz

E acionou todos os meus gatilhos simultaneamente

Ou isso foi proposital

Se eu morresse agora, tornaria o que eu disse menos verdade?

Você vê, meu trabalho está feito

Quando você finalmente perceber que eu fiz tudo o que pude

Que eu te confrontei

Quando você perceber quantas vezes me disse não

Vai entender que eu não tenho objetivos

Vai entender que eu não esperava isso também

Vai entender que eu acolhi o sentimento porque não sou uma máquina

E vai perceber que fiz tudo o que pude enquanto você se escondia nas pessoas

Por orgulho eu o mandaria à merda

E te chamaria de hipócrita mais 20 vezes

Se você tem medo da verdade fuja

Eu vou te dar razão.

domingo, 2 de maio de 2021

Peregrino do nada

Devo ser uma louca feliz

Estou viva e sou amada

Ignoro tudo o que quiz ou não fiz

A vida anda mesmo é na estrada


O tao existe, independente

De mim, contra ele posso nada

Inclusive ir contra a corrente

Mesmo que não esteja aprisionada


Nem que pudesse, faria

Não por medo da consequência

Mas por ter a ciência fria

De enxergar além da aparência


E quantas belas surpresas me aguardam

Ainda que o curso normal tenha mudado

Sigo em frente mesmo quando todos param

Porque o olhar da alma é sempre iluminado


Não temo os reboots da vida

O método reside no experimento

Não me imobiliza nem a ira

Nem as noites frias de lamento


Arrombo tudo com o peito

E quando algo finalmente transpassar

Não vou achar menos que Bem feito!

Pra mim vai ser só mais uma entrada de ar


Alguns me chamam de insensível

Outros de arrogante

Reconheço a ignorância do invisível

Na negação que o óbvio garante


Quem é que sustenta o homem

Além da vida, perguntaram

Troquei o foco desde ontem

Da provisão, ultrapassado


Coexistência é simétrica por natureza

Na multiplicidade fundamentada

E quem enxerga o núcleo da beleza

Não teme a morte, nem a vida e nem nada.





sábado, 1 de maio de 2021

Corta-vento

A graça estava no interesse

Genuíno antes do saber

Porque o saber é velado

Onde só a intuição penetra

Apenas a queda livre mostra a verdade

Como se os mistérios fossem todos expostos

Seríamos ainda mais entediados 

Ainda por isso nunca me ocultei

Além da transparência da própria rebeldia

Contra o que sabemos ser obsoleto


Não é crime saber que estamos fadados

Nem é mistério

É projeção das mais chulas

Até meu cachorro perceberia

A única coisa de estranho

É continuar te vendo em todas elas

Sou antagonista da obsessão

E todos bem sabem, eu preferia estar bebendo.