terça-feira, 26 de abril de 2022

Inferno

 Mãe,

Eu tenho alimentado os santos com meu próprio sangue

E ele flui contra a minha vontade de ver esse coração bater

Cada dor é como um prego na mão, nos pés, no crânio

E eu sou punida por falar a verdade, sem ter o direito de morrer

Meus amigos estão tão cansados quanto eu

Posso enxergar as cruzes deles de onde estou

Sem nenhum crime e com tantos julgamentos

Não há água suficiente pra lavar tantas mãos

Não há papel suficiente pra queimar

Nem árvores suficientes pra cortar tantas mágoas

Eu sei que aceitei a missão mas isso dói

Não sei se o tempo pode recuperar essas feridas

A empatia é um veneno no qual estou viciada?

O certo e o errado deixaram de ter importância

O meu exemplo inspira pessoas a não querer ser

Quem em sã consciência vai optar por este martírio?

Me dói saber que as crianças não têm escolha

E de tantas dores, eu sinto as que não queria

As outras permanecem nas portas dos fundos da mente

Aguardando um espaço pra prosperarem no consciente

Minhas noções de justiça estão entorpecidas

E cada minuto nesta terra é um estupro.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Locus focus

Meus olhos queimam

Não só pela água mas pelo fogo

Em veios obstruídos, ora doloridos

Exaustivamente cavados pelo tempo

E cada quase é uma ranhura 

Na placenta infectada da minha retina

Que dói por ser forçada a ver

Cada objetivo ser dissolvido

Pela lama ensandecida da ganância

E há quem diga que odiaria estar 

Do lado dos vencedores, antítese

A morte não se ganha, nasce congênita

Da primordial da ausência dos sentidos

Atores adestrados nos açoitam por prazer

Enquanto entoam mantras desafinados.

Agora, meus ouvidos também doem.




sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Ego

 Do topo da cadeia alimentar

Quanto maior a altura, maior a queda

O único lugar onde quero estar

É aos pés de lótus do meu irmão

Incontáveis vidas joguei no fogo

Pra assassinar o ego dos tolos

E quantos morreram quando avisei

E o tédio de ver repetidos os erros

Destruindo a tudo sem termo, é humano

O fluxo das belas luzes que eles nunca verão

O coroado pela escala evolutiva é insano

Os que o cercam não chegam a ser animais

Formas autônomas de ego e erro

Se repetindo em mono. O Logus não está

Só os envólucros caindo aos pedaços por dentro

Drenando ao redor em ritmo lento

A verdade é bela como meu amado

Ele não tem casta, nem pai, nem mãe

Ele é o universo desvelado

Ele é a matriz da consorte 

E a morte não é nada mais que a pausa antes da vida

Como bem disse Mirabai

"Eu que andei nas costas de um elefante

Por que querem que eu monte um asno? 

Tenham dó".


sábado, 25 de setembro de 2021

Missão avançada

Os fatos transcorrem lentamente

Dissecando no limiar da dor

E ainda que houvesse latente

O berro do monstro em torpor

Escapa da brecha crescente


Cada morte em vida cicatrizada

Com interrupções metodicamente ignoradas

Até a rima, sem lamento, estraga

Como minha vontade escapa

A conta-gotas da torneira quebrada


Não tem medida nem sincronia

Na quantidade de vida vazia

E sonhos mortos pela via

Me levando goela abaixo, eu ia

Se fosse pelo menos metade de vadia


Mas nem isso, a maldita travada

Recatada, recortada e colada

Desmoronando pelas sacadas

E os demônios seguindo, livres

Pelas bordas da madrugada


E da poça do meu sangue

Sobem raízes de mangue

Como espadas afiadas

E há quem se ache suficiente bento

Pra apontar o gozo infame às risadas


Vem, amputai mais um braço, 

A dor é irrelevante, eu faço

Da quantidade de vezes que renasço

As contas desse quadrante

Do mais mal aproveitado espaço














quinta-feira, 24 de junho de 2021

Parasita

Que impulso é esse de ser

Se a essência já bastava

Mas é como se quisesse converter

A pessoa ingênua e desavisada

A aprovador, alimento espiritual

Precisa mesmo da platéia

Cada atitude, um ritual

Obrigatório é aprovarem a idéia

E cada sentimento residual

Deriva desse conselho

Mas eu prefiro ser verdadeiro

Viver no meio do gelo

Ser considerado feio

Esse é meu gozo afinal

Sem essa gente suja

Sacana, oportunista e obtusa

E seu menu de desejos

Dos insatisfeitos ao banal

Pesando no meu travesseiro

Não tenho vocação pra liderança

Só toco os outros na esperança

De um convívio equilibrado

Mas parece que sempre esperam 

Que alguém dite suas falas e guie seus passos

Entenda meu mais simples anseio

Não julgo ninguém anormal

Mas também não vejo a necessidade

De enfeitar minha vaidade

Com elogios manufaturados

São padrões irreais

Suas etiquetas sociais

Não servem nem pra capacho.





42 passos dentro do abismo

 Pensamentos em cascata

Alguém esqueceu de incluir a errata

As palavras se desalinham facilmente

Na planície de um cérebro dormente

Como à perna, imóvel há alguns minutos

O sangue volta lentamente pelos dutos

A paz desce à conta-gotas

No cortex se contorcendo

Intermitente, o desespero em cotas

Vai sendo bombeado peito adentro

O ladrão de ar se confunde

E fica girando nos dutos pulmonares

E o pensamento astuto difunde

Estranhas mensagens subliminares

Fechar os olhos não é opção

No mundo secreto do medo

O fraseio, paulatinamente sem noção 

Se percebe encurralado em um beco

Pálpebras úmidas observam tudo, piscando 

E a inércia do ar contesta, quase pestanejando

Se a calma não vem contando os passos

A gente busca e trás ela apanhando

Mas nunca sei se são os cacos pelo caminho

Ou se o pontapé no rumo do tino

É o que faz a gente chegar cambaleando

A cobra que se devora pelo rabo

Nunca encontra a origem

Não sabe onde acabo

 Nem aonde começa o rastro de fuligem

O estado da matéria é momentâneo

A despeito da liquidez,  não entre em Pânico.






sábado, 22 de maio de 2021

Bom senso

Você precisa testar suas teorias em um rato de laboratório

E acredita piamente que encontrou o modelo certo

Quando concordei em participar, não me foram apresentados termos

Portanto é hora de você entender que nada do que pensa está fundamentado

Afeto não deve ser estudado cientificamente

Ele não obedece leis nem tem dispositivos determinados

Por tentativa e erro você é capaz de matar e ser morto?

Ora, não te vi com o pescoço arriscado

Eu sou a louca e no final de tudo, é apenas um tratamento

Então deixe-me receitar algo para obsessão

Misture dois copos bem cheios de esquecimento, uma gotinha de lamento

Três dos vários pedaços de mim que você colecionou

Ponha no fogo do meu ódio pela forma como tudo aconteceu

Inale a sensação de vazio, de arrependimento e perda de tempo que emana desse amor líquido

Depois tome-o, sem esperar esfriar

Dentre os efeitos catalogados, você vai deixar de perguntar se tenho certeza

E vai passar a estar certo de que não está acabado o que nunca começou

De que a ilusão foi um fator mútuo que influenciou negativamente seu experimento

Fadado ao erro pela pura falta de simetria, além da falta de objetivo

Reações adversas esperadas são náuseas, raiva e sensação de perda de tempo

Você pode se sentir um pouco manipulado, mas são os ansiolíticos que você já toma

Remédios horríveis estes, prefiro o que te indiquei e ele tem nome:

Bom senso.