terça-feira, 25 de novembro de 2014

Arjuna e Drupadi

Cantamos a mesma canção mas cantamos pra quem?
Trilhamos a mesma estrada, até onde se a tem?
Bifurcam-se os passos quando convém?
Jurei não escrever nunca mais pra ninguém

A canção velha que o vácuo ressoa
Sem padrão, vibra a toa
Sem razão amplifica ou ecoa
E do eco, a razão decepa ou entoa

O cansaço do peregrino das almas
O vento que espana o turbante enegrecido
O olhar de velho e recém nascido
Que contempla a areia como quem faz reverência às tumbas.

E eu que tinha jurado nunca mais escrever a toa
Pago minha lingua adormecida
Com estes dedos de vintém.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Isaz

A negra e delicada seda,
Pende no vento insistente,
Vertendo sangue de sua trama
Frágil e firme, presa aos galhos
Da lembrança oca, que estanca.

Mergulha no próprio breu vácuo
Sem dança, a chama ausente
Tremeluz na malha fria e insana
Tal qual o xamã embriagado
Que o mal, suturando, inflama.

Arqueja em violentos espasmos
A fim de se livrar do que a cerceia
Sem armas se prostra, valente
Ignorando os elos, agora falhos
Que desmancham donde, presa, Ela se lança

O tecido em frangalhos lembra
Do rolar na terra, a poeira quente
Mais ainda do que a rubra lama
Tingindo multiplas hastes e entalhos
Como se, com a queda a certeza
Viesse se desfazer no romper das tranças.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Pur Purina

Porque no princípio
Veio o verbo para ser,
Presente, pretéritos e múltiplos futuros
Concebidos, criados e registrados
Estabelecendo essa mão dupla
Que substrata os destinos

O fluxo, a luz, a chama
Do fogo para alcançar o som
Que toda vocalização inflama
Espalhando-se em marolas de sub tons
Que infiltram pela pele tupla
Desta malha sensorial que vestimos

Não está além nem adiante
Não existe até que queiramos
Não  desfaz a promessa dos amantes
Não cega depois que a queimamos
Vontade, afetada, vertida e ampla
Goteja e nutre os nossos êxtimos.





quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Mosqueteiro

Derramou quatro taças
Incitou quatro cores
Humedeceu as quatro íris
Fixadas nas quatro colunas, flores

Em Ishtar fracassou
Três corpos mergulhou
Chorou do colo de Ísis
Perecendo nas altas torres
E desaguou à pira.

Mas, ainda existindo, gira
No encontro dos dois pontos
Será a seta que afaga
Será a areia que apaga

Superficial figura
Não passa de fagulha
Perto daquilo que guarda.

domingo, 17 de agosto de 2014

Quinto Império

Alma, o nectar

Matriz universal de todo movimento
Drenada, armazenada e processada
Como bebida falsificada, envasada
Em recipientes orgânicos de plástico
Que se decompõe sob pressão.
Sociedade manufaturada
Estagnada e putrefata.

Olhar predador
Na cadeia de eventos, previsível
Da importância vulgar do óbvio
Transforma o tédio em agonia
Arrasta o tempo em afasia,
Semeiando nas arestas, o ódio.

Daqueles que jazem desertos
À sombra do carvalho, perenes
Sob tão rígida e inflexível postura
Para nós, ainda que cansados, apura
Todos os infames desígnios dos ébrios
Desejos absurdos e injúrias.




O guardanapo do guardião

Chora. Implora, goza.
A vida é bela, a vida é fera, é uma merda.
Mas merda aduba, palavras de baixo calão masturbam
Os ouvidos mais apurados, deturpa a alma dos defasados
Humilhados que choram e imploram por conhecimento, e gozam
Criam? Creriam que eu seja ou sejamos, mas claro que somos parte
Desta eterna, externa boss(t)a, que samba e revira tudo pras bordas
E chora porque não gosta do que foi criado como se a responsabilidade
Fosse habilidade implicada, implicancia ou teste de aptidão
Cansativo tudo isso. Quadro velho, tinta dura, musica ruim...
E a dor... ah, a dor é só o tempero dessa salada gosmenta
Humano, é isso, salada orgânica gosmenta e indigesta
Que o universo, entediado, expurgou.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Error 404

Quero me comunicar com quem?
Meu protocolo é desconexo, meus sentimentos estão prescritos
Em algum papel carimbado, numa caligrafia terrível
Por algum outro doente mais qualificado

Clara demonstração de que eu também não me encaixo
Neste teatro de papel sujo, reciclado e enrendo sofrível
Cuja história, mentirosa, goteja, me asperge e grita
Das tumbas dos antepassados silenciados

Porque eu sou tu, eu sou nós, esta inscrito!
No código sagrado, milenar e ilegível
Que daquele obsoleto senhor amoral desalmado
Restou apenas o tu, o vós e os que seguem.

E por isto, reduz nossa espécie a rebanho,
Alguns indivíduos cômicamente selecionados, ao pastoreio,
Nosso habitat a um cemitério,
E ainda quer que eu ache sério
Os critérios de escolha desse personagem

Então volto ao placebo
Até que uma hora, percebo
Que não há vaidade em tirar vantagem
De qualquer doença da qual eu me julgue curado.

Sobre a poesia e os relógios de ouro

Como se o tempo cobrasse as horas
Como se a palavra custeasse o momento
Na dança, na posse, no intento
As lesões comprovam: Porra nenhuma!
É como escolher por fator rh
Bancando o geneticista sênior
E ver os ponteiros girando, o prêmio
Mas na espiral da vida... encurralados
Ir baixo é vergonhoso demais
Pra enxergar a verdade do círculo
Ou ao menos ter o senso de ridículo
E desviar esse olhar descendente
Ou então que a sabedoria latente
Invente de solver os metais
Dessas caras pálidas, desamarrar
As posses, os refluxos e armaduras.
Como se o tempo acabasse agora,
Como se a palavra significasse...




segunda-feira, 21 de julho de 2014

Adam

Lendas flutuam nas linhas dos mitos
Mitoses de uma célula-mãe desgastada
Degeneradas pela natureza dos fatos
Fartas das vidas inutilmente abastadas
Das quais nunca concluíram os êxitos vivos.

Os ciclos mareiam até o mais habil navegante
Ante toda esta frustração indumentária
Párias são os que profanam em vão
A razão que insiste em se fazer necessária

Variante de todas as consequências,
Óbvia meta a ser alcançada.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Caprica Seis

Dante ainda é um pesadelo doce
Daqueles que se toma por um padrâo
No qual conseguimos sentir a segurança
Da dúvida sem morrer.
Pois assim como Dante, já se está morto.

A mentira maior é pretender viver
Por cima dos pedaços que sobraram
Da estátua que quebrou...
Tentar substituí-la como um forasteiro
Abraça um povo que o acolheu.

O erro está em lembrar da queda
Da cerâmica e da alma que nela havia
Substituindo-a pela nossa própria
Como se o pecado original fosse,
Na verdade, a verdade.

domingo, 1 de junho de 2014

Esmeralda

Presa da realidade
Ou do que puder chamá-la.
Da fuga, da subjetividade, quem dera!
Desta era de transição, fugiria
Sonhando voltar para a imensidão
Que desconheço e desde então...
Sinto saudade.

É como se cada verdade do topo
Das cascatas mal descobertas, eu visse
Em leito manso repousando junto aos mitos
Ao invés dessa mitose de proscritos
Emaranhados e atados a esta mãe encubadora

A cada risco neste domo negro, uma reticência
E muitas vezes me falta paciência
Pra esperar chegarmos e donde vimos
Eu não vi mas lembro
E sinto muito....
Sinto saudade.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Lactea, a última estrela

Me deixou na escuridão
Mas esqueceu que sou confidente dela
Muito antes de nascermos d'esta
Majestosa estrela morta translúcida

Guia dos mundos desconhecidos és
Guarnecida das almas insolentes
Genitora dos torpes
Grandiosa é a morte dos impostores

Elucida os mistérios do profundo
Enquanto embala seus rebentos
Enforca auditos reis sem lamento
Emanando a gravidade do inexistente

Deleitosa protetora latente
Do ventre da vida, és remanescente
Ditando as regras fora das leis
Domando as mentes dos sábios incipientes

Reune os desertores sob a mesma insígnia
Rasga a pele dos soberbos fanáticos
Ritualiza e me expurga dos fracos,
Rangindo as arestas das vossas realidades!

Para que eu jamais esqueça
Puro apelo que nunca receberás
Pela ordem da flamejante estrela
Porto de eternidade que nunca jaz!

Samsara

O ambiente,
O gradiente,
O paciente,
O senciente...

Todos mudam.

A chuva nunca é a mesma.
A musica nunca é a mesma.
A trilha nunca é a mesma.
Assinas e nunca sai a mesma.

Tudo passa.

A chave desgasta.
A clave satura.
A cama afunda.
A paz assusta.

Toda saga.

Finda a vida.
Funda o parâmetro.
Força o motor.
Frisa o pânico.

Tu não vagas.

Gira a alma.
Vira o leme.
Ira a calma.
Pegue e reme.

Do chão não passa.

sábado, 15 de março de 2014

Olho D'agua

Sorri,
Como nascente que escorre silenciosa montanha abaixo
Sem esperar,
Afluentes, peixes, árvores, pássaros, plantas, pessoas.
Trilha solene
O caminho suave entre a grama e o chão de temores, que tentam absorver mas apenas se solvem
E se fundem e se entregam à benção liquida que dos seios terrenos reluz.
Aglutina-te, ante o sol e a lua, hora dançando, hora repousando...
Cristalizado nas pequenas lembranças transparentes de eras glaciais ancestrais.
Reflete o brilho da mãe e aceita o calor do pai como se fossem teu próprio corpo, aquele que alimenta a terra!
E por fim...
Voa como o espírito das eras, que de tempestades fizeram esculturas, talhando os quatro cantos do mundo com a certeza da eternidade...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Desperdício

Memórias são como larvas
Quando brandam, estão em pupas
Crescendo lentas e silentes
Até eclodirem, surtas
Rasgando a pele do esquecimento
Durante aquele momento
Se pisa em terreno encharcado
Se vê novamente enforcado
Reprova o gosto metálico
Por baixo, através do cimento
Que escorre pelo ventre escaldado
E, selando as galerias com palavras
Acrescenta mais uma partição
A biblioteca dos malfadados:
"Sessão das pestes latentes"

Principes descoroados
Plebeus e playboys revoltados
Ou míseros abastados,
Não dialoguem com a serpente
Ou morrerão asfixiados
Pelo tempo.

Suicida

A dor se anestesia a si
Ante a cegueira de tudo que já vi:
Pessoas sofrendo despreocupadas
Presas num mecânico sonho
Aceitamos o açoite, risonhos,
O carrasco e o réu, acorrentados.
Talvez esteja cauterizado
N'alguma singularidade, absorto
Da vida, evidente aborto
Esta parte nossa desconectada
Ou então a mente desestruturada,
Ou então a balança que molda o jogo.
Ou então a covardia que assassina o novo, 
Salve a família em troca do ovo
Deixe a matilha pra perseguir o corvo
Abandone a vida, mas permaneça no corpo
A falta da luz dos olhos orientando ao derradeiro porto.

Gota D'agua

Ecoa um grito mudo
Através de líquidos impuros
Através de pensamentos ilícitos
Através do cansaço e do desespero
Atravessa as almas sutis
Se choca contra os pesadelos
E ao invés dum apelo
Se traduz em explícito
No sorriso dos nascituros.

Binah

Sou eu quem constrói
Quem sabe o que sabe
Diretriz irreversível
A vontade direcionada

Mão que aplica o fio
Da espada e afia o corte
Também sou a própria morte
Escorrendo dilacerada

Da vida, sou o norte
O botão da rosa que se abre
A parte que se cabe
Desta teia invisível

Esta força exarcebada
Chama da consciência
Negativo polo, diz a ciência
A verdade consumada

A terra que germina
O foco, negro brio
Do vácuo, imponente vazio
Do gênero, feminina.