sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Ego

 Do topo da cadeia alimentar

Quanto maior a altura, maior a queda

O único lugar onde quero estar

É aos pés de lótus do meu irmão

Incontáveis vidas joguei no fogo

Pra assassinar o ego dos tolos

E quantos morreram quando avisei

E o tédio de ver repetidos os erros

Destruindo a tudo sem termo, é humano

O fluxo das belas luzes que eles nunca verão

O coroado pela escala evolutiva é insano

Os que o cercam não chegam a ser animais

Formas autônomas de ego e erro

Se repetindo em mono. O Logus não está

Só os envólucros caindo aos pedaços por dentro

Drenando ao redor em ritmo lento

A verdade é bela como meu amado

Ele não tem casta, nem pai, nem mãe

Ele é o universo desvelado

Ele é a matriz da consorte 

E a morte não é nada mais que a pausa antes da vida

Como bem disse Mirabai

"Eu que andei nas costas de um elefante

Por que querem que eu monte um asno? 

Tenham dó".


sábado, 25 de setembro de 2021

Missão avançada

Os fatos transcorrem lentamente

Dissecando no limiar da dor

E ainda que houvesse latente

O berro do monstro em torpor

Escapa da brecha crescente


Cada morte em vida cicatrizada

Com interrupções metodicamente ignoradas

Até a rima, sem lamento, estraga

Como minha vontade escapa

A conta-gotas da torneira quebrada


Não tem medida nem sincronia

Na quantidade de vida vazia

E sonhos mortos pela via

Me levando goela abaixo, eu ia

Se fosse pelo menos metade de vadia


Mas nem isso, a maldita travada

Recatada, recortada e colada

Desmoronando pelas sacadas

E os demônios seguindo, livres

Pelas bordas da madrugada


E da poça do meu sangue

Sobem raízes de mangue

Como espadas afiadas

E há quem se ache suficiente bento

Pra apontar o gozo infame às risadas


Vem, amputai mais um braço, 

A dor é irrelevante, eu faço

Da quantidade de vezes que renasço

As contas desse quadrante

Do mais mal aproveitado espaço














quinta-feira, 24 de junho de 2021

Parasita

Que impulso é esse de ser

Se a essência já bastava

Mas é como se quisesse converter

A pessoa ingênua e desavisada

A aprovador, alimento espiritual

Precisa mesmo da platéia

Cada atitude, um ritual

Obrigatório é aprovarem a idéia

E cada sentimento residual

Deriva desse conselho

Mas eu prefiro ser verdadeiro

Viver no meio do gelo

Ser considerado feio

Esse é meu gozo afinal

Sem essa gente suja

Sacana, oportunista e obtusa

E seu menu de desejos

Dos insatisfeitos ao banal

Pesando no meu travesseiro

Não tenho vocação pra liderança

Só toco os outros na esperança

De um convívio equilibrado

Mas parece que sempre esperam 

Que alguém dite suas falas e guie seus passos

Entenda meu mais simples anseio

Não julgo ninguém anormal

Mas também não vejo a necessidade

De enfeitar minha vaidade

Com elogios manufaturados

São padrões irreais

Suas etiquetas sociais

Não servem nem pra capacho.





42 passos dentro do abismo

 Pensamentos em cascata

Alguém esqueceu de incluir a errata

As palavras se desalinham facilmente

Na planície de um cérebro dormente

Como à perna, imóvel há alguns minutos

O sangue volta lentamente pelos dutos

A paz desce à conta-gotas

No cortex se contorcendo

Intermitente, o desespero em cotas

Vai sendo bombeado peito adentro

O ladrão de ar se confunde

E fica girando nos dutos pulmonares

E o pensamento astuto difunde

Estranhas mensagens subliminares

Fechar os olhos não é opção

No mundo secreto do medo

O fraseio, paulatinamente sem noção 

Se percebe encurralado em um beco

Pálpebras úmidas observam tudo, piscando 

E a inércia do ar contesta, quase pestanejando

Se a calma não vem contando os passos

A gente busca e trás ela apanhando

Mas nunca sei se são os cacos pelo caminho

Ou se o pontapé no rumo do tino

É o que faz a gente chegar cambaleando

A cobra que se devora pelo rabo

Nunca encontra a origem

Não sabe onde acabo

 Nem aonde começa o rastro de fuligem

O estado da matéria é momentâneo

A despeito da liquidez,  não entre em Pânico.






sábado, 22 de maio de 2021

Bom senso

Você precisa testar suas teorias em um rato de laboratório

E acredita piamente que encontrou o modelo certo

Quando concordei em participar, não me foram apresentados termos

Portanto é hora de você entender que nada do que pensa está fundamentado

Afeto não deve ser estudado cientificamente

Ele não obedece leis nem tem dispositivos determinados

Por tentativa e erro você é capaz de matar e ser morto?

Ora, não te vi com o pescoço arriscado

Eu sou a louca e no final de tudo, é apenas um tratamento

Então deixe-me receitar algo para obsessão

Misture dois copos bem cheios de esquecimento, uma gotinha de lamento

Três dos vários pedaços de mim que você colecionou

Ponha no fogo do meu ódio pela forma como tudo aconteceu

Inale a sensação de vazio, de arrependimento e perda de tempo que emana desse amor líquido

Depois tome-o, sem esperar esfriar

Dentre os efeitos catalogados, você vai deixar de perguntar se tenho certeza

E vai passar a estar certo de que não está acabado o que nunca começou

De que a ilusão foi um fator mútuo que influenciou negativamente seu experimento

Fadado ao erro pela pura falta de simetria, além da falta de objetivo

Reações adversas esperadas são náuseas, raiva e sensação de perda de tempo

Você pode se sentir um pouco manipulado, mas são os ansiolíticos que você já toma

Remédios horríveis estes, prefiro o que te indiquei e ele tem nome:

Bom senso.














sexta-feira, 7 de maio de 2021

Horizonte de eventos

 Eu não quero ser nada aqui não

Tá doido, pra quê assumir essa responsabilidade

De levantar um estandarte e não poder mais ir a lugar nenhum?

Como um soldado inglês ou uma estátua

Um pedregulho, nem isso!

Eu não quero ser nenhum Cristo pendurado, nenhuma luz

Só quero não querendo, estar sem estado

Até a preguiça pode me deixar enjoado

Me interessa mesmo só cada instante, sem olhar pro lado

Hesitante, exilado, que porra, eu quero é ficar excitado

Minha única condição é a de tédio constante

Um tédio cíclico, uma consoante sem significado

Que ira isso mantém, arfante, segurando o cabresto já degenerado?

Ah é exagero, você deve estar equivocado

Esquizofrênico, emperrado. A culpa

É sempre do último a ficar calado?

Quero que se foda, quero é vodka, eu quero estar errado!

Porque tudo o que vejo é tão entendiante

Que eu não posso simplesmente ver acontecer e ficar sentado.

Quer saber? Quero mais nada não. Nem o instante. Vamos abreviar o papo... você pode pegar tudo e enfiar no...














quinta-feira, 6 de maio de 2021

Verde

A verdade é que toda mãe da terra é nossa mãe também

E a gente nem sabe mais se não sente, ou se está chorando por dentro

É um sorriso meio descabido e um olhar de tempo perdido

De toda vez que te via de manhã e não vejo mais

De nem saber e de repente

Esse verde brilhante se dissolver no ilusório

E a planta que nunca mais vou poder te pedir a muda

E todas as outras que você já me apresentou, as que não deu tempo de perguntar

E eu mal lembrava na correria do dia, mas a gente se via... e passava

Ninguém vai saber que eu senti sua falta, aquele sorriso bobo

Bom dia, mãe, bom dia vizinha

Me desculpa, eu tô com o coração meio míope também

Tomara que você não me esqueça








segunda-feira, 3 de maio de 2021

Entropia

Pra existir, é necessário forçar

Nem a respiração vem fácil

O alimento só pode ser conquistado

De uma forma ou outra, algo se move

Alguém intenta, energia colapsa

E se aglutina no novo

Mas eu não sinto vontade

Eu sinto a distância, sem a vaidade

Não possuo nada, acreditar no contrário

É ilusão. Também não quero possuir.

É outra ilusão. Quem fica e quem vai

Está cumprindo sua função

Quem sou eu pra questionar

Minha única pergunta é

Com qual objetivo ficamos ou vamos?

Eu também não tenho objetivo

Já tive, planinho traçado, impecável

Veio o inesperado e rabiscou tudo

Pior que um guri encapetado

Eu faço o que? Gargalho

Se eu não controlo nada

Por que vou me irritar com o que deu errado?

As linhas contém cálculos não finalizados

O mais sensato a fazer é ficar parado

Esse é o nada, esse é o tao

E quando eu acho que entendi

A resposta está para o outro lado

Tenho a vontade, sinto

Porque o sentido surge da necessidade

De discriminar o que interage

Para bem ou mal de si

É natural e justo, são quatro mãos

Segurando as duas pontas de uma corda

Entrelaçadas em outras cordas

Algum sem noção deitado no meio

Sem julgamento, eu faria o mesmo

Aliás, é o que eu estive fazendo

Acredito que algumas daquelas cordas

Só não me estrangularam porque eu deitei

A preguiça é o melhor pecado

Porque te impede de cometer os outros seis

A pureza do movimento

Reside na sutileza do meio

E assim fazendo nada

Eu danço no ritmo do devaneio

As vezes eu esqueço

E a música para

A mente grita

A coluna estrala

Lá vem ela, a corda desvairada

Pra eu pular outra vez

Ou cair sentada

Ou surtar, dessa vez

É isso que me mata

A mesma racionalidade que salva

Também silencia, imobiliza

Ou na verdade estou presa

E minha cama é uma miragem

O incomodo vem da dúvida genuína

Ou da ilusão da verdade?


Fóssil

 Algo está acontecendo

"preto calado está errado"

Mas você é preto

"Me respeita, negrinha"

Sua arrogante, sua descabelada

Você quase matou sua mãe, desvairada

Você não sabe andar direito, essa toalha não é sua

Você deveria ser um menino, está ridícula

Você deveria tocar o que eu mando

Amigos pra que, você tem os meus

Você deveria voltar pra casa, seu marido precisa de uma esposa

Você ainda tem essa doença estranha? 

Porque você escuta essas músicas ridículas,

Você deveria ser igual fulana, seria melhor se você fosse um ciclano

Quando eu tive você, estava bêbada

Estava com vergonha

Estava morta

Sua desengonçada, o mundo é ainda pior

Você vai se arrepender

Ela é esquisita, pelo menos é inteligente

Você é muito inteligente, nossa


Amigo, se eu fosse mesmo inteligente, você acha que teria escolhido nascer desta espécie?

Obstruido

Você duvida

Eu também

Você tentou

Eu também

Você sangrou

Eu também

Você se expôs

Eu também

Mas eu dei a cara a tapa

Eu cedi a pessoas que nunca me respeitaram

Pra ter direito a uns minutos do seu tempo

Eu fui dissecada, me deixei ser manipulada

E tudo o que devolvi foi o espaço que você pediu.

Ou vc foi muito infeliz

E acionou todos os meus gatilhos simultaneamente

Ou isso foi proposital

Se eu morresse agora, tornaria o que eu disse menos verdade?

Você vê, meu trabalho está feito

Quando você finalmente perceber que eu fiz tudo o que pude

Que eu te confrontei

Quando você perceber quantas vezes me disse não

Vai entender que eu não tenho objetivos

Vai entender que eu não esperava isso também

Vai entender que eu acolhi o sentimento porque não sou uma máquina

E vai perceber que fiz tudo o que pude enquanto você se escondia nas pessoas

Por orgulho eu o mandaria à merda

E te chamaria de hipócrita mais 20 vezes

Se você tem medo da verdade fuja

Eu vou te dar razão.

domingo, 2 de maio de 2021

Peregrino do nada

Devo ser uma louca feliz

Estou viva e sou amada

Ignoro tudo o que quiz ou não fiz

A vida anda mesmo é na estrada


O tao existe, independente

De mim, contra ele posso nada

Inclusive ir contra a corrente

Mesmo que não esteja aprisionada


Nem que pudesse, faria

Não por medo da consequência

Mas por ter a ciência fria

De enxergar além da aparência


E quantas belas surpresas me aguardam

Ainda que o curso normal tenha mudado

Sigo em frente mesmo quando todos param

Porque o olhar da alma é sempre iluminado


Não temo os reboots da vida

O método reside no experimento

Não me imobiliza nem a ira

Nem as noites frias de lamento


Arrombo tudo com o peito

E quando algo finalmente transpassar

Não vou achar menos que Bem feito!

Pra mim vai ser só mais uma entrada de ar


Alguns me chamam de insensível

Outros de arrogante

Reconheço a ignorância do invisível

Na negação que o óbvio garante


Quem é que sustenta o homem

Além da vida, perguntaram

Troquei o foco desde ontem

Da provisão, ultrapassado


Coexistência é simétrica por natureza

Na multiplicidade fundamentada

E quem enxerga o núcleo da beleza

Não teme a morte, nem a vida e nem nada.





sábado, 1 de maio de 2021

Corta-vento

A graça estava no interesse

Genuíno antes do saber

Porque o saber é velado

Onde só a intuição penetra

Apenas a queda livre mostra a verdade

Como se os mistérios fossem todos expostos

Seríamos ainda mais entediados 

Ainda por isso nunca me ocultei

Além da transparência da própria rebeldia

Contra o que sabemos ser obsoleto


Não é crime saber que estamos fadados

Nem é mistério

É projeção das mais chulas

Até meu cachorro perceberia

A única coisa de estranho

É continuar te vendo em todas elas

Sou antagonista da obsessão

E todos bem sabem, eu preferia estar bebendo.











quarta-feira, 28 de abril de 2021

Números

Quando o nome vem primeiro

As veias apagadas não levam

Nem mais o oxigênio sobressalente

Com suas desnutridas células 

Em um privativo cativeiro

Os drenos, sufocando lentamente

Sobre a cama de pregos com travesseiro

Que mal suporta o peso da mente

Os tubos e fios, como chicotes inertes

Marcam a pele do mesmo jeito:

Esparadrapos grunhindo

Espasmos involuntários

E silenciosos gemidos


Quando não há nome

Um súbito impacto sela

O peito prensado se congela

Num último segundo de adrenalina

A vida passa em um fio

A alma consente num pio

E ali mesmo tudo se encerra

Somando aos números, sina

Que desde o nascimento rondava

As bordas do precipício









segunda-feira, 26 de abril de 2021

Pedra Lascada

Não me leve a mal

Mas uma pessoa que se preze

Não quer ser notada

Não quer que ninguém mude um ponto

No seu conto

Com uma visão equivocada


A imagem é uma coisa centrípeta

Que esmaga ao invés de dar vida

Melhor passar desapercebida

Que ser apedrejada


Raramente uma estrela cadente faz barulho

Quando faz, correr é inútil de todo

Menos para o tardígrado

Que já leu o livro, viu o filme e o seriado

E achou bobo


Ficar nos anais da história

Prova que meu brinquedo foi quebrado

Quero a paz de só lembrarem de mim

Quando eu já estiver do outro lado


Aí não será mais eu

Nada que me consuma

Nenhum dedo apontado

Nenhuma verdade oculta


Mais de apenas uma casca

Para as cascas que lêem

Se identificarem numa lasca

Daquilo que não vêem



- Lalla, como você suporta viver nua na frente dos homens?

- Não vejo nenhum homem aqui. Que roupa seria mais bela e mais sagrada?





domingo, 25 de abril de 2021

Lalla

Meu consorte está nas cinzas

Daquele que ainda não nasceu

E daquele que perecerá

Ele não espera nem O fogo

Para a verdade consumar


Meu consorte não teme

Nem o que foi, nem o que será

Seu primeiro nome é tempo

E seu último nome o tempo dará

Hoje é chamado criador

Amanhã, qual nome terá?


Meu consorte não está aqui

Meu consorte não está em nenhum lugar

Porque o estar é passageiro

E o tempo não pode parar

Mas eu o acelero mesmo assim


Minha vida não tem termo

Onde ele não está

Não há casta nem título

Que possa me apaziguar

Meu consorte venceu a morte


Por que eu hei de esperar?

sábado, 24 de abril de 2021

Terraformar

 A deusa da morte caminha pela terra 

Ontem ela me tocou e eu não senti dor

O gado de corte, a mesa cheia, o ódio não erra

Só desintegra toda forma de amor


Não foi como se eu nunca houvesse existido

Assisti a tudo, quase sem medo

Eu, o jardim e as migalhas do meu grito

Seu olhar sem esperar, perdido 


Nem chego a ser lembrança, talvez sensação

De um abandono que nunca aconteceu

Talvez tenha me transformado em ânsia

De tudo que nunca foi meu


A deusa da morte está assentada na sala

Comemorando o fim enquanto nós, a chegada

O copo meio vazio, a busca atrasada

O desencontro das almas, aquele que cala


A pira das cinzas funerárias

Você sem mais incômodos

A Deusa nos tem como párias

E nós, a ela como engodo


A Deusa caminha

Enquanto sua fome não for saciada

Você não sorria

Enquanto eu era a piada?


"O problema são os outros"

A Deusa sabia.