Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal —
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval…
E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã…
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste… Seu ’spírito monge
Para nada externo é perto e real…
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval…
O. C., I v., Poesias, p. 208.
Fernando Pessoa
Explicações superficiais com elementos visuais
Ignoro a terça parte do horizonte olhando acima
Onde estrelas brilham ocultando eventos
Que a mente vã subvoando, fantasia.
E para onde quer que se tente focalizar
A gravidade insólita flutuando elementos
Me gira a terra para o avesso teto
E faz-me o chão de vento
Ao invés de desnortear, firmo e acalento
Como se as asas pudessem provar
Com aurículo paladar, fractal sinestesia.
Fluo junto ao inverso, conexa patente
Presenteio ao futuro um verso oculto, linear
Minha bussola tal um catavento, confusa
Por intensos lapsos no espaço-tempo
Ativa o dínamo da vontade fusa
Com pequenos espasmos de mar
E uma erupção de estrelas ascende
Clareando a terra poente.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Shavhat
Ó meu ingênuo companheiro,
não mencione o nome do amor.
É muito estranho o caminho
quando você oferece seu amor.
Seu corpo é esmagado ao primeiro passo.
Se você quiser oferecer amor
esteja preparado para cortar a sua cabeça
e se sentar sobre ela.
Mirabai (aprox.1498-1550)
Meu amante está casado com a morte.
Ele mesmo jaz, vívido, entre sonhos e memórias latentes
Alçado num pedestal de tédio por douradas correntes,
Atado e embebido em vinho, saudoso artesão.
A minha dor é a dor dele, inexistente
Que também imune jaz, a própria dor,
Na submissão moral, se afoga à flor
De suas dúvidas existenciais, expiando.
Ambas surrealidades fadadas ao martírio
Enquanto acariciam o evento final, lírio
Em uma das mãos, a vontade cicuta
E na outra o alimento do delírio, velando...
Rejeito.
A mim me interessam apenas a lótus e o feito.
não mencione o nome do amor.
É muito estranho o caminho
quando você oferece seu amor.
Seu corpo é esmagado ao primeiro passo.
Se você quiser oferecer amor
esteja preparado para cortar a sua cabeça
e se sentar sobre ela.
Mirabai (aprox.1498-1550)
Meu amante está casado com a morte.
Ele mesmo jaz, vívido, entre sonhos e memórias latentes
Alçado num pedestal de tédio por douradas correntes,
Atado e embebido em vinho, saudoso artesão.
A minha dor é a dor dele, inexistente
Que também imune jaz, a própria dor,
Na submissão moral, se afoga à flor
De suas dúvidas existenciais, expiando.
Ambas surrealidades fadadas ao martírio
Enquanto acariciam o evento final, lírio
Em uma das mãos, a vontade cicuta
E na outra o alimento do delírio, velando...
Rejeito.
A mim me interessam apenas a lótus e o feito.
sábado, 24 de novembro de 2012
Absinto
Ooh, in hellish glare and inference
The other one's a duplicate
The queenly flux, eternal light
Or the light that never warms
Yes, the light that never, never warms
Yes, the light that never, never warms
Never warms, never warms
Astronomy, Metallica
O relógio marcava doze horas,
Todos jogando baralho numa sala reduzida a drogas e cinzas
Toda a fumaça dos cigarros me asfixiando
A visão periférica embaçada.
Alguém dizia que a festa era lá fora
O álcool no meu sangue me dizia que festa nenhuma havia.
Subi os degraus apostando corrida com ninguém
No salão, pessoas mascaradas pelo social burburinhavam...
Todo aquele ruído me expulsava pra varanda.
E contra o céu negro, a imensa abóbada do palácio maravilhava.
Milhares de pontos brilhantes anunciavam algo que eu ainda não sabia.
"Venham ver, já está na hora!!!"
Homens, mulheres, velhos e crianças correram pra fora
Meu olhar confuso percorreu toda aquela arbórea paisagem escura e
Encontrou no céu não fogos de artifício, mas o espetáculo de Leônidas...
'Todos aguardavam por ISTO enquanto eu perdia tempo lá em baixo?'
Enquanto eu olhava, hipnotizada, meus dedos digitavam mecanicamente
'Você tem que ver isto, você tem que ver, me atende, me atende!'
"Sua chamada esta sendo enviada para a caixa..." desliguei.
Era o Meu Êxtase, ver tão claramente algo sobre o qual eu só havia lido.
Alguém do meu lado perguntou o porquê de as estrelas estarem caindo
"Sua chamada esta sendo enviada para a caixa..." desliguei.
Era o Meu Êxtase, ver tão claramente algo sobre o qual eu só havia lido.
Alguém do meu lado perguntou o porquê de as estrelas estarem caindo
Enquanto eu rememorava a história da cauda de um cometa vadio que surgiu
Fulgurante e ameaçador, até...não, aquilo era mesmo assustador!
Parecia a própria absinto cadente que no ultimo instante, retornou!
Parecia a própria absinto cadente que no ultimo instante, retornou!
Degluti minha taquicardia com o resto do havia no meu copo
As luzes magicamente cessaram.
Senti que tinha que sair dali, e rápido...
Tentei colocar minhas memórias em ordem enquanto lavava o rosto
'Eventos dessa magnitude não acontecem todos os dias.'
As luzes magicamente cessaram.
Senti que tinha que sair dali, e rápido...
Tentei colocar minhas memórias em ordem enquanto lavava o rosto
'Eventos dessa magnitude não acontecem todos os dias.'
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
O Eco do Renegado
“ Por que os humanos sempre olham fixamente para o céu?
Por que desejam voar quando não possuem asas?
Nós vamos correr para qualquer lugar que conseguirmos correr com estas pernas.”
Kiba
Quando a solidão fora a melhor companhia
Quando chorar for a única válvula de escape
Quando gritar não gerar som algum
Quando a dor calar o que restou do grito
Quando não houver mais lágrimas p'ra secar
Quando confiar não for mais opção
Quando o descaso adormecer a alma
Quando a esperança perder o significado
Quando desistir for cansativo
Quando seguir for mecânico
Quando buscar for inútil
Quando duvidar for incoerente
Quando o olhar mentir
Quando o rastro se apagar...
O quanto poderá sentir?
O quanto poderá pensar?
O quanto poderá agir?
O quanto poderá julgar?
A dor de sorrir
Ardor de lembrar
A morte aferida
À sorte deriva
uma dúvida...
Pra onde correr?
Por que desejam voar quando não possuem asas?
Nós vamos correr para qualquer lugar que conseguirmos correr com estas pernas.”
Kiba
Quando a solidão fora a melhor companhia
Quando chorar for a única válvula de escape
Quando gritar não gerar som algum
Quando a dor calar o que restou do grito
Quando não houver mais lágrimas p'ra secar
Quando confiar não for mais opção
Quando o descaso adormecer a alma
Quando a esperança perder o significado
Quando desistir for cansativo
Quando seguir for mecânico
Quando buscar for inútil
Quando duvidar for incoerente
Quando o olhar mentir
Quando o rastro se apagar...
O quanto poderá sentir?
O quanto poderá pensar?
O quanto poderá agir?
O quanto poderá julgar?
A dor de sorrir
Ardor de lembrar
A morte aferida
À sorte deriva
uma dúvida...
Pra onde correr?
sábado, 13 de outubro de 2012
A luz
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָֽרֶץ
(Bereishit bara Elohim et hashamayim ve'et ha'aretz)
In the beginning God created the heaven and the earth
(Genesis 1:1)
A verdadeira obra é omissa
Num descaso eterno para consigo
Fragmentada no pó, jaz viva
Esperando que finalmente a encontrem
Para então se reconstituir em luz, à visão.
Embora seja o derradeiro alvo de si mesma
Ainda é arquétipo da suprema beleza
Encerrando no mistério, paradoxa relação.
Reação suspensa, em curso.
Contraria o movimento a todo custo
Numa eterna balança de valores.
Mas se acima dela estando ela mesma,
O amor ao ódio no branco do preto inverta
Jogar-se-á pedras no lago da eternidade
Assim, é esta a incipiente vontade:
Colapsar o ranço da inércia numa pulsar de cores!
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Copo meio cheio
Gota d'agua.
De dia é dourada, de noite é prata.
Lágrima ou dádiva, de todas as maneiras...
Transborda!
Afoga e acorda,
Desenhando o tapete da mãe na escala primaveril.
Sozinha é a louca, diluída é oceano.
Precipitando é anil.
Nivelou...
Sumiu.
De dia é dourada, de noite é prata.
Lágrima ou dádiva, de todas as maneiras...
Transborda!
Afoga e acorda,
Desenhando o tapete da mãe na escala primaveril.
Sozinha é a louca, diluída é oceano.
Precipitando é anil.
Nivelou...
Sumiu.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
A mesa de Darāyu
— Então você realmente sabe todas as coisas, não é?
— E você também, naturalmente. Só que eu sei que sei todas as coisas.
— Eu poderia tocar violão assim?
— Não, você teria o seu estilo, diferente do meu.
— Como é que se faz?
Não pretendia correr de volta e comprar o violão, estava apenas curioso.
— É só largar todas as inibições e idéias de que não sabe tocar. Pegue
naquilo como se fizesse parte de sua vida, como de fato faz, em alguma vida
alternada. Saiba que o certo é você tocá-lo bem, e deixe que o seu ser nãoconsciente
tome conta de seus dedos e toque.
Lera alguma coisa a respeito disso, a aprendizagem hipnótica, em que
se dizia aos discípulos que eles eram mestres de arte, e assim tocavam,
pintavam e escreviam como artistas.
— É uma coisa difícil, Don, deixar de saber que não sei tocar violão.
— Então será difícil para você tocar violão. Levará anos de prática até
conseguir fazê-lo direito, até que a sua mente consciente lhe diga que você já
sofreu bastante e conquistou o direito de tocar bem.
— Por que não custei a aprender a pilotar? Dizem que é difícil, mas
aprendi rápido.
— Você queria voar?
— Nada me interessava mais! Mais que tudo! Olhava para as nuvens e
para a fumaça da chaminé de manhã, subindo reta e calma, e via... Ah, já sei.
Você vai dizer: “Nunca sentiu isso quanto aos violões, não é?”
— Nunca sentiu isso quanto aos violões, não é?
Bach, Richard Ilusões, pg 54
O ideal clássico caiu por terra.
Por falta de caráter mesmo, sem ser deposto,
É o mal disposto, das piores facetas do mal:
Nas costas das cartas, máscara do conteúdo,
Sob o pretexto das carnes humanas,
Às variadas essências, passam-lhe pelas mãos...
Mãos generosas de tinta!
Por cima da parede de concreto chapiscado,
Que é pra intimidar a indecência do mau jogador...
Ainda que a jogatina seja uma parte da aparência,
Ascenso está o espírito no velho baralho...
Impregnado e cansado da sabedoria do jogo.
Jogar com a ilusão faz passar o tempo.
E depois de descoberto, uma dose do elixir
Da vontade, a zombar da beleza às propriedades,
Confundindo os véus que dançavam em silêncio
Sob melodias que nunca existiram:
A mão do homem morto,
O melhor dos presságios.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Mágika
EU SOU aquele cercado pelos quatro.
Se Eu mantiver o silêncio - Ou se falar,
Cada palavra será sofrimento sem esperança.
À sombra do guerreiro, jazem
Aguardando terreno fértil para broto,
As armas que cintilam de viés...
Erigindo silencioso templo groto
Emerge consciente, a derradeira passagem
Expondo o recôndito da paz, além.
Inspirado em seus sábios mestres
Iniciado pelos self-cientes
Imaculado pela verdadeira fé-hu
Ostenta a estratégia dos deuses
Ouvida nos sussurros dos ventos
Outrora emudecidos pelo receio de ser...
Ultimato, pára a falsa palavra!
Urge este aettyr de victória!
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Prometheus
"La, vois, le saule s'incline dessus du ruisseau,
comme une personne qui se descend, criant pour l'amant.
Me rapelle d'automne, presse dans ton reverence,
je m'ai engagee a vous..." Anathema
A Indecência da incandescência oblitera
Ofusca a vista do suposto belo, desterra
A busca do alívio na dor, iniciação pragmática
Extrai virtudes de lacerações magmáticas
Forjando deuses de argilosos homens
Uma questão de superioridade exaspera
Em secretas conspirações, manipulam-se esferas
Se avultando no tempo, a humanidade plástica
Resume em mero tributo à sua moral estática
Praguejar pelas mentiras que, ignóbeis, consomem.
Eu que me fujo das promessas do cardápio
Por garrafas de solidão e uma dieta de batráquios,
Tomando ciência dos fatos apenas por premissa
Que soldar-me nesta teia de mentalidade submissa
E devorar sorrindo minhas próprias entranhas.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Sulfur
Serpente trans morfa asfixiante
Enzima digerindo lasciva pele
Sem a substância, é latejante
Ostensiva que a m'alma fere.
Planeando por tal mundo vagar
Em erro, na dor se catapulta
Sorrindo do aroma a matar
Investe, serena e sepulta.
Deste sacrifício vão, consente
Com a lucidez das moribundas
Ver o fogo etéreo que ascende
Às infernais esferas, em tumbas.
E Dante, de amor a gozar
Goza do amor alheio
Mil personas ao afago salutar,
Abrasado pelo destino eu apeio!
E no leito das sanguessugas
Trato de meus devaneios
Contido no fim, um pouco de cura,
Tão infausto assim, é meu anseio.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Tebaida
"Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo..." Marisa Monte
Completo tal espelho no escuro
Tateando o hipotético auguro,
À sombra dos sóis de mil diálogos
E ignorante a todos os prólogos
Tenho a memória povoada de escusos.
Sem autoria nem cantoria,
Poesia mecânica se manifesta
Ludibriando o secreto arcano
Com a certeza de quem atesta
A própria morte sem sentença.
Assim, aqui estou... fadado a ouvir
O verdugo gotejar da brilhante estrela
Ao escuro do espelho, se indo diluir.
Como se fosse sacro escaravelho
Me comprimindo em interna cela.
Dedicado a Agni, ìcaro, Phoenix e Hórus.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Pirita
“The nitrogen in our DNA, the calcium in our teeth, the iron in our blood, the carbon in our apple pies were made in the interiors of collapsing stars. We are made of starstuff.”
― Carl Sagan, Cosmos
Era uma caverna, estalagmites mortais brotavam
Gotas do mais puro ódio se transmutavam
Defesa, arma natural, mas o que era aquilo?
Brilhava oxidada num canto isolado
E tola como era, presa ao revestimento
Como se fosse A aurífera, dona do local
Me roubou a atenção, por curiosidade;
Totalitária na sua solidão de pedra
Qual brilho amarelado me cegando os olhos.
Meu entusiasmo viciado de colecionadora
Se esvaiu em chamas, iluminando a gruta
Quando então percebi-lhe os atributos, deveras!
Que na mais arquitetada das mentiras era,
E revelou-se sem o ardor duma extração:
Uma simpática pirita amarela.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Ilusão
'Dori me
Interimo adapare
Ameno ameno
Lantire Lantiremo
Omenare imperavi
Ameno
Dimere dimere
Mantiro Mantiremo
Omenare imperavi emulari
Ameno
Ameno dore
Dori me reo
Ameno dori me
Dori me am.'
Eric Levi
Foi-se o tempo em que as palavras podiam ser ditas
Puramente por seu sentido literal, sem reservas
As crianças possuem uma dádiva, ingenuidade
Todo o resto ou é medo ou perdição, malditas!
Investidas cruéis num campo de batalha
Parte de estratégias sórdidas sem objetivo...
Vazio!
Cada palavra ausente se verbaliza e me fere
Vazio!
Com a eloquência teatral dos sádicos,
Ultraja a sabedoria dos magos
O que estão fazendo, fazendo consigo!?
Uma agulha no palheiro você me diz...
Uma gota no oceano?
NÓS SOMOS O OCEANO!
Interimo adapare
Ameno ameno
Lantire Lantiremo
Omenare imperavi
Ameno
Dimere dimere
Mantiro Mantiremo
Omenare imperavi emulari
Ameno
Ameno dore
Dori me reo
Ameno dori me
Dori me am.'
Eric Levi
Foi-se o tempo em que as palavras podiam ser ditas
Puramente por seu sentido literal, sem reservas
As crianças possuem uma dádiva, ingenuidade
Todo o resto ou é medo ou perdição, malditas!
Investidas cruéis num campo de batalha
Parte de estratégias sórdidas sem objetivo...
Vazio!
Cada palavra ausente se verbaliza e me fere
Vazio!
Com a eloquência teatral dos sádicos,
Ultraja a sabedoria dos magos
O que estão fazendo, fazendo consigo!?
Uma agulha no palheiro você me diz...
Uma gota no oceano?
NÓS SOMOS O OCEANO!
Vício
"Aquilo que me ataca me enche de vida."
Chandramukhi
Todos aqueles que perderam algo temem.
Por todos os minutos que foram desperdiçados
Todas as palavras ditas em vão
Todas as mentiras consentidas e
Todas as imagens no espelho sujo de
Toda a vaidade capital, perniciosa;
Temem, mas por capricho, sedem.
Todos os sentimentos assassinados
Todos os pensamentos envenenados
Todas as intenções mal definidas
Todas as cicatrizes expostas
Temem a nudez da alma ferida
E no entanto jogam suas pérolas fora.
E tudo o que é mais sagrado
Por tudo o que é mais sagrado!
A única coisa de que precisavam
No desespero de todas as mágoas
No anseio de todas as calmas
Era que lhes curassem a dor
Mas em troca se viciaram nela...
Chandramukhi
Todos aqueles que perderam algo temem.
Por todos os minutos que foram desperdiçados
Todas as palavras ditas em vão
Todas as mentiras consentidas e
Todas as imagens no espelho sujo de
Toda a vaidade capital, perniciosa;
Temem, mas por capricho, sedem.
Todos os sentimentos assassinados
Todos os pensamentos envenenados
Todas as intenções mal definidas
Todas as cicatrizes expostas
Temem a nudez da alma ferida
E no entanto jogam suas pérolas fora.
E tudo o que é mais sagrado
Por tudo o que é mais sagrado!
A única coisa de que precisavam
No desespero de todas as mágoas
No anseio de todas as calmas
Era que lhes curassem a dor
Mas em troca se viciaram nela...
domingo, 29 de julho de 2012
Legenda
O querer bruto, inerte, é apenas vibração
Propagando-se, inútil, descarregada de intenção.
Entenda os nervos danificados que nada mais captam
E a máquina orgânica que redireciona, muda o tom.
Da dor, aprenda! É apenas um estado temporário
À mente, atenta: Visões sempre têm um significado.
Na senda da vida que se foi, incontestável pretérito.
A ciência que creu descobrir múltiplas dimensões
Extasiada por matéria, é deficiente no mérito.
Enquanto o trabalho, ouro feito no silêncio das tensões
Dos sentidos unificados, é razão que espera, nega.
Mas como cegar os olhos de uma pessoa já cega?
A aprendiz ama o mestre que observa
A matriz que nutre com sabedoria a terra.
A meretriz conscientemente se entrega...
O soldado segue ordens e morre na guerra...
A luz existe apenas na presença da treva:
Nada condiz com toda essa empatia sintética!
A dor, tão permanente quanto aqueles nervos
Cede as lembranças à proposta experimental
E na natureza contida, a programação magistral
Apenas mantém sua sequência, alterando os termos
Sístole e diástole, solve et coagula,
Retém...e liberta!
O cego nômade
A caneta aponta para o vazio
Abismo de palavras desconhecidas
Sua razão, a muito despedida
Das repetidas tensões que levam ao erro.
Sem intenção pré-concebida
Desliza suavemente criando formas
Nunca se importa com as cultas normas
Se amparando na busca de algum alívio.
É como acordar sozinho num lugar ermo
Sem sentir curiosidade ou motivo de recordar
Uma andarilha da nossa mente mapeando
A trilha interna na escuridão da própria presença.
sábado, 28 de julho de 2012
Perelandra
Quão doce pode ser esta fruta
Que usurpei por acaso do destino?
Pés desnudos caminham por jardins secretos
Tingidos dum místico florescente de verde primaveril
Quantas cores que jamais poderia distinguir?
Estes aromas embriagantes, caleidoscópios de luzes cintilantes,
Atuando em mim com mais mil entorpecentes coadjuvantes
Dançando silenciosa melodia num compasso febril!
O passado oxidado se decompondo, inútil,
Revela ocultas passagens ainda mais exuberantes
E como se o guia do paraíso pudesse ser o próprio Dante,
Levanto voo como se nunca fosse cair.
sábado, 7 de julho de 2012
Vacuum
Qual a origem da admiração ao ser
Que não tenha sido observado no não-ser?
Se o que parece necessita de um parecer
E só após definir-se torna
Como se nós fossemos a solda
Desse carrossel desenfreado chamado mundo.
Quando se está no escuro
Esperando o alívio das estrelas,
O que devem ter pensado os mundos
Enquanto giravam impiedosamente
Dependentes dos caprichos delas?
Certamente a experiência é bela
Exatamente mutante como se sente.
Se saudade da calmaria eu pressentir
Da ausência do brilho da matéria-vida
Dessa eternidade de idas e vindas
E me caracterizarem por criminoso
Persisto alegremente neste ato pecaminoso
Que aprecia a aglutinação da mente
Desde quando nem semente existia,
Mãe inconsciência carinhosa, assistir.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Andante Tendencioso
Eu bebo do cálice da loucura
Tencionando sorver sanidade
Eu canto com tons de amargura
Mas meus olhos cintilam felicidade
Eu ando com passos lentos
Mas sigo um caminho canhoto
E eu sei que em estradas largas
Vou encontrar portões estreitos
Que há canions que são passagens
Para grandes vales e rios leitos
Que não há amor constante
Nem dor eterna
Só há janela.
Eito!
Tencionando sorver sanidade
Eu canto com tons de amargura
Mas meus olhos cintilam felicidade
Eu ando com passos lentos
Mas sigo um caminho canhoto
E eu sei que em estradas largas
Vou encontrar portões estreitos
Que há canions que são passagens
Para grandes vales e rios leitos
Que não há amor constante
Nem dor eterna
Só há janela.
Eito!
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Aspas
Há aqueles que nascem certeiros
E silenciosos como uma seta.
Alguns brandem, pesados...
Tal qual espadas.
Outros mal chegam a punhal.
Bem aventurados são os raros
Que podem se declarar funda:
Aparentemente inofensiva,
Capaz de matar gigantes
E transformar pequenos em reis.
Provérbios de Lugar Nenhum
E silenciosos como uma seta.
Alguns brandem, pesados...
Tal qual espadas.
Outros mal chegam a punhal.
Bem aventurados são os raros
Que podem se declarar funda:
Aparentemente inofensiva,
Capaz de matar gigantes
E transformar pequenos em reis.
Provérbios de Lugar Nenhum
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Labor Mudo
O inicio estabelece a finalidade pela qual
O observador inicia suas experiências:
O nascimento do observado.
Toma-se nota dos eventos importantes
Vê-se o mestre absorto em pensamentos
Buscando suas respostas fora
Duvidando de si por alguns instantes e,
Exaurindo a mente de toda cacofonia
Declara-se cansado enfim.
Pausa.
Retomando a tarefa, focaliza o objetivo:
Total aproveitamento das
possibilidades
Encontra no solitário esforço exaustivo
O alimento subjetivo do observado.
A busca interna que se inicia então
Marca o final da própria senda material.
Ultima nota tomada do evento:
‘Num dado momento a morte do objeto,
A seguir, o nascimento da substância. ‘
Silêncio.
Prólogo da Inconsciência
Infantil, sinônimo de incapaz e não aprendiz.
Moro num lugar onde cultuam a ineficiência.
Juventude desviada, desculpa que condiz
Com a falta de sabedoria. Culpam a ciência
Mas mal sabem o que procuram e lhes falta
Paciência. Isso explica o mal do século
O nexo jamais receberá alta.
Tenho pena do infeliz.
Ser humano, animal? Não, tubérculo.
Bons semeadores os deixam apodrecer
Aos montes, poluindo o campo fértil.
Queixam-se constantemente das colheitas,
Mas se alimentam da terra débil?
Aram e adubam com o sangue deveis
Dos inocentes que se desenterram
Clamando pelo cozimento das seitas
Abortados das raízes para
perecer no tédio.
Triste sina que evitavelmente se repete:
Incontáveis gerações amaldiçoando cruelmente
Incontáveis gestações e rebaixando inutilmente
Bilhares de prematuros ócios ao nível de peste,
Reproduzem insanos genes deficientes,
Recriando desentendimentos ultrapassados
Assassinando os seus incoerentemente.
E invertendo o todo numa teologia doente,
Acham genial dizer que estão inventando
O que não já não se enxerga mais na própria mente.
E hoje, a paciência já não é um dom,
Mas uma virtude. E, por mais que a haja,
O esforço de levar luz ao entendimento
É impossível pela estrada do homem.
A escória de um é o diamante de outrem,
Se o contrário pode acontecer, lamentavelmente,
A dualidade inexorável é termo concreto,
Brincadeira de mau gosto da suprema existência...
Ecoando a afirmação, disfarçada de pergunta:
Quem é você? Acaso você se lembra do por que
De ter-se feito homem, e qual cruz escolheu pra si?
Deste anátema me rio. Amém.
Canção do Tao
Valor, amor às pequenas coisas;
Verso desdenho de certos sabores
Vil emoção desprovida de substância
Amores, penhores, odores, valores;
Inverso medonho pleno em dissabores
Dos quais se horroriza a mônada instância.
Grande descoberta falha à humanidade
Que menospreza o eterno a condição imoral,
Quando, na realidade implacável,
Tal termo se desassocie da verdade
Rebaixado cegamente a mísera condição
De qualquer diminuta unidade temporal.
Outra grande fatalidade preserva o absoluto
Mascarado tristemente aos cinco sentidos da carne.
E faz das almas, prisioneiras de pupilas grades
Algumas gemendo, outras gritando,
A maioria incapaz de serrar, cerra.
E encenando uma cegueira a capela,
Impregna o éter com canções de luto.
Canções como esta que vos embuto.
Muscipula
Vejo a flor num deserto encharcado
Oasis em mosaico de vidros cortantes...
Folhas verdes e pétalas multicoloridas,
Exalando perfumes viciantes
Mística, sintética, nocivo alento.
Abatedouro de inseto pestilento,
Oca por dentro, armadilha infalível.
Padecendo de tantas vidas, natureza...
Desprezada por si, observada, envergonhada,
Animosidade a flor... mortificada.
Uma mutação forçada...a fortaleza;
Eu vejo a esfinge amaldiçoada
Eu vejo a flor, seu cálice oxidado vertendo.
Eu vejo a flor, digerindo a si...
A menor das dores...
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